Sufoco em Salvador ─ Relatos de um Leitor

Depois de muito labutar tentando decidir qual seria meu primeiro relato aqui, e sobre qual viagem, cheguei à conclusão de que não poderia começar por outra cidade senão Salvador, e o sufoco que eu passei lá logo no meu primeiro dia.

Já estive em Salvador três vezes, e a última delas sendo no ano passado. Estar em Salvador é sempre muito divertido e marcante. Tudo começa no aeroporto. Podemos perceber a hospitalidade dos baianos logo no primeiro contato. Aquela sua vontade de beber um café ou refrigerante acaba se tornando uma curta sessão de terapia, que dura cerca de um minuto com o atendente do quiosque. Na maioria das vezes, somos recebidos com um sorriso de entusiasmo, seguido de alguma pergunta rapidamente elaborada, feita com uma simpatia que só encontramos na Bahia. A hospitalidade dos soteropolitanos nos deixa completamente à vontade. O sotaque cordial junto com uma expressão alegre nos convida a dar o melhor de nós.

A saída do aeroporto também tem sua peculiaridade, com a fila de táxis devidamente posicionada, nos lançando ao acaso. Quem será o motorista que nos conduzirá? Será um homem de meia idade, que estava na fila há vários minutos, rezando para todos os santos na esperança de que seu próximo passageiro tenha um destino distante? Ou seu motorista será um senhor que dirige por paixão, e que encontrou refúgio dentro de seu carro, que é cuidado com tanto mimo?

Finalmente entro no táxi e descubro que minha companhia pelos próximos minutos se chama Lúcio, e tem duas filhas. Meu destino era o centro histórico de Salvador, o Pelourinho, ponto tão conhecido pelos jovens das proximidades e basicamente por todo baiano que se entende por gente. O custo da estadia em Salvador não é tão alto ─ caso você conheça a pessoa certa para lhe indicar um bom local por um preço camarada. No meu caso, eu quis ficar no Pelourinho, e sabia que isso me custaria um pouco mais. E foi totalmente válido.

O Pelourinho é o local da cidade onde as pessoas não possuem nenhum tipo de rótulo, nacionalidade ou classe social. Você pode ser cidadão de qualquer país, de qualquer cidade, mas, ao entrar no Pelourinho, você automaticamente se torna um cidadão do Pelourinho, e todos os membros que chegaram lá antes de você farão com que a sua recepção seja digna de um conterrâneo. A pluralidade cultural é apenas um fator que deixa a região ainda mais singular. O seu idioma nativo não tem a mínima importância, da mesma forma que o sotaque de qualquer outra região brasileira. Nada lhe impedirá de receber a energia que só encontramos naquela área, onde até o Michael Jackson já foi cidadão um dia.

Saindo do Pelourinho, naquele final de manhã de quinta-feira, na metade do mês de Dezembro, logo após ter deixado minhas malas na pousada, decidi ir até um local da cidade que eu tinha certeza que era pouco visitado por turistas. Os taxistas são as melhores referências que temos quando precisamos encontrar algum local para visitar. Acredito que antes de ser taxista, você precisa estudar todas as ruas da cidade e todos os estabelecimentos. Eu sei que não é nada fora do normal um taxista saber muito sobre os pontos da cidade e toda sua particularidade, afinal de contas, é a cidade dele. De qualquer forma, isso sempre foi algo que chamou minha atenção.

Seja como for, eu pedi ao taxista que me levasse a um local no subúrbio que tivesse movimento, mas que não fosse perigoso para um turista. Mais uma vez, o nome do motorista era Lúcio, e esse é o único nome de taxista que me recordo daquela viagem, e isso porque ele acabou me colocando numa situação que eu não esquecerei por pelos menos mais uns 5 anos. Mas falarei sobre isso daqui a pouco.

Lúcio então decidiu me levar para um bairro não muito distante do Pelourinho ─ e eu não lembro o nome desse bairro agora. Como ainda estávamos sob a luz do dia, nada parecia muito diferente inicialmente. De fato, era um local com aparência suburbana, mas com muita gente sempre circulando ─ como pude perceber ainda dentro do táxi. Podíamos ver pessoas se reunindo aqui e ali, e eu comecei a me acostumar com o local.

Finalmente paramos numa área um pouco grande, parecida com uma praça, com vários estabelecimentos ao redor e a maioria deles bastante movimentada. Pude ver alguns bares mais distantes com aparência não muito convidativa e, mais perto, próximo ao local onde Lúcio me deixou, tinham alguns restaurantes multifuncionais, que acredito que você podia procurar qualquer coisa neles e, com certeza, encontraria. A intenção do taxista foi bastante precisa. Ele me levou a um local do subúrbio, onde havia muitas pessoas ─ exatamente como solicitei ─ e, convenientemente, cercado por restaurantes. Sim, pois, naquele momento, o sol de meio-dia se apresentava com toda sua majestade, por cima das nuvens cada vez menos presentes.

Acabei escolhendo um dos restaurantes aleatoriamente, e passei a hora seguinte de forma ordinária, sem nenhum acontecimento marcante para relatar aqui. Pouparei vocês de algumas linhas talvez maçantes e não descreverei como estava a comida, nem como passei cerca de trinta minutos usando o celular e muito menos como foi a minha conversa de 5 minutos com a minha mãe. Irei direto ao ponto que interessa.

Após ter almoçado e feito todas essas coisas ordinárias que fazemos, eu resolvi sair do restaurante e tirar algumas fotos do local onde eu estava, para mandar para alguns amigos, grupos e também para manter um registo dos locais que visitei. Comecei a andar pelas proximidades, com meu celular, tirando algumas fotos e enviando ao mesmo tempo usando esses aplicativos que todos conhecemos e usamos. Até que então decidi filmar, primeiramente utilizando a câmera normal do celular. Pouco depois passei a usar a câmera frontal.

Eu fiquei caminhando e filmando durante uns cinco ou dez minutos, e realmente fui me desligando de tudo à minha volta, enquanto fazia essa dinâmica de tirar fotos e conversar no celular. O que acontece é que eu estava sendo observado fazia algum tempo, provavelmente desde quando resolvi tirar fotos do local ou filmar. Quando eu percebi que estava sendo observado por três rapazes, automaticamente guardei o celular e comecei a caminhar, tentando encontrar o caminho de volta para o local onde estava antes, e onde eu havia visto alguns táxis sempre chegando e saindo.

Os rapazes perceberam que eu os tinha visto e continuaram a me seguir. Enquanto eu filmava, tirava fotos e conversava no celular, eu não tinha percebido o quanto tinha caminhado. Acabei me distanciando bastante do local onde Lúcio me deixou. Quanto mais eu percebia que estava distante, mais meu nervosismo aumentava. Os rapazes então decidiram me abordar. Eles vieram caminhando rapidamente por trás de mim a pararam na minha frente. Dois deles usavam bonés e umas correntes que pareciam de prata, com uns símbolos que não consegui identificar.

O rapaz que estava no meio deles falou comigo, mostrando um sotaque carregado de gírias e uma postura um pouco agressiva.Ele perguntou se eu era policial e o que eu estava filmando. Eu comecei a suar, e nesse aspecto fui bastante ajudado pelo clima de Salvador. Respondi ao rapaz que eu era turista, e que estava apenas tirando fotos e filmando um pouco do local para mostrar aos meus amigos. Foi muito difícil fazer eles acreditarem que eu era apenas um turista ─ que tinha acabado de perceber que tinha tomado a decisão errada, ao resolver ir a um local do subúrbio sem a companhia de um nativo.

Foi tão difícil fazê-los acreditar que eu acabei não conseguindo. De alguma maneira, eles estavam convencidos de que eu não era turista e resolveram pegar meu celular. Nesse momento, eu não sabia se queria que alguma viatura da polícia passasse por ali. Não sabia se seria bom ou ruim para mim. Eles poderiam simplesmente correr ao avistar as cores da polícia, ou poderia acontecer algo pior, como uma troca de tiros ─ naquele momento eu não descartava nenhuma possibilidade.

Eles pediram meu celular e eu resisti no começo. Mas acabei entregando depois de mais duas educadas solicitações que quase me derrubaram no chão. Toda aquela atitude deles era algo completamente novo para mim. Naquele momento, o tempo parecia não passar, tal como quando assistimos a uma aula chata, que nunca acaba. Tudo que eu queria era me livrar daqueles rapazes e entrar em um táxi ─ nunca na minha vida senti tanta vontade de estar em um táxi.

A rua que estávamos não era muito movimentada. Enquanto eu continuava conversando com o aparente “líder” deles, percebi um homem que tinha acabado de dobrar a esquina e começava a andar em nossa direção. Esse homem se vestia e andava de uma maneira levemente parecida com a dos meus novos amigos soteropolitanos. Ele não demorou a aproximar-se de nós. Encarava os rapazes e eu, como se conhecesse algum de nós. Quando se aproximou, logo se dirigiu a um deles. A conversa foi bem rápida e cheia de gírias.

Pelo pouco que entendi, esse homem que acabara de chegar estava tentando fazer com que os rapazes me deixassem ir, argumentando que eu era de fato um turista e que eles estavam me assustando ─ ele me explicou, depois, que aquela situação era comum naquela zona da cidade. Todos eles pareciam se conhecer de alguma outra ocasião. Inicialmente eles mostraram resistência, mas acabaram me devolvendo o celular e me deixando ir. Durante o diálogo regional daqueles baianos tão fervorosos – que não durou mais que um minuto –, eu não consegui pronunciar uma palavra sequer. Quando eles me liberaram, agradeci muito àquele homem desconhecido que me tirou daquele sufoco. Ele me explicou que o tráfico de drogas é bastante presente naquela região, e tirar fotos ou filmar só é liberado com a permissão dos lideres. Eis aí um bom exemplo de uma sociedade organizada.

Seja como for, logo após de ter saído daquela situação, não demorei a encontrar o local onde o taxista havia me deixado. Não foi difícil encontrar um táxi depois de ter chegado lá.

Finalmente entrei em um táxi e pedi para ir para o Pelourinho ─ naquele momento eu só conseguia pensar em tomar um banho e dormir. Bom, naquele momento, eu só conseguia pensar nisso, mas enquanto eu era abordado pelos rapazes, pensei bastante em minha mãe. Queria muito ouvir aquele “vai ficar tudo bem” mágico que só nossa mãe consegue transmitir. Pensei na tristeza que ela sentiria caso algo ruim acontecesse comigo. E também queria que ela estivesse ali; com certeza ela colocaria aqueles rapazes para correr.

No caminho de volta para a pousada, comecei a contar o que tinha acontecido para os meus amigos, mas só fui terminar à noite. Logo quando cheguei no quarto, a primeira coisa que fiz foi tomar um banho, e depois dei um belo salto em direção à cama. Minha mente estava extremamente cansada, até mais que meu corpo. Acabei tendo uma ótima tarde de sono.

Bom, para o meu primeiro dia em Salvador ─ daquela viagem ─, as coisas até que foram bastante movimentadas. Muita coisa aconteceu durante os quase oito dias que passei com a minha naturalidade alterada para cidadão do Pelourinho. Nos próximos relatos, vocês descobrirão que não sou um cara de muita sorte.

Até lá!

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29 anos, colaborador. Apenas mais um contador de histórias.