Qual a validade da música? ─ De Mozart aos anos 2000 no Brasil

É difícil precisar sobre a validade de uma música, estilo ou vertente musical. A música de Mozart, Haydn, Beethoven e semelhantes, tem seu prazo de validade diretamente ligado ao bom gosto humano. Enquanto existir a alta estima pela boa música, a sonoridade dos mestres citados permanecerá inabalável.

Existe, porém, a grande esfera de músicas sazonais. Estas, no entanto, incorporadas em seus propósitos temporais, igualmente transmitem qualidade. E isto não remete, em nenhum aspecto, a uma contradição. Antes de elucidar este ponto, preciso voltar às criações mais arcaicas. Mozart, em sua excelência — bem como Haydn, Beethoven, Bach, Schubert e os demais —, alcança a façanha de ser universal dentro das necessidades e anseios que nos levam a reproduzir suas criações.

Pois, estas, se encaixam em perfeita comunhão com qualquer que seja a nossa urgência. Basta recordar-se dos nossos intentos. Se estamos contentes, ouvimos Mozart. Quando estamos tristes, ouvimos Mozart. A felicidade dos êxitos pessoais nos faz aumentar o volume das sinfonias de Mozart. A tristeza nos faz olhar fixamente para o aparelho de som, que toca Mozart. O luto, em seu lúgubre cenário, acentua os graves tons dos Requiems de Mozart.

E assim fica mais evidente a excelência musical transcendente. Mozart consegue, com a mesma música, satisfazer todos os nossos sentimentos. Tal grandeza talvez nunca consiga ser explicada. E isso se aplica também aos outros grandes. Pois essa música consegue reunir, em uma só obra, todos os anseios e necessidades de sua geração, bem como das seguintes, estendendo-se pela eternidade, até quando existir o apreço pelas belas artes.

Regredindo, portanto, à análise das músicas sazonais, eis que a divergência entre as duas atmosferas se mostram latentes. Existem estilos musicais, bandas, artistas e segmentos que, nada mais, apenas retratam a imagem de uma época. Adicionalmente, pintam com os acordes da precisão o retrato de uma ou mais gerações. No entanto, tal pintura possui data de validade.

Acredito que existe uma demarcação, dentro da música, que anula o prazo de validade dessas criações. Essa demarcação, como qualquer outro tipo de limite, nos mostra exatamente onde se encontra a porta que dá entrada ao reino dos mestres perenes. Em outras palavras, essa demarcação nada mais é que a separação dos excelentes e dos apenas bons.

Isso porque as boas músicas também têm seus ciclos temporais. E podemos confirmar isso apenas olhando em volta do nosso cenário cultural. Tomando o Brasil como exemplo, quais eram as boas músicas que coloriam nossos dias nos anos 2000? E na década de 90?

Ótimas músicas foram criadas nesses anos nostálgicos. Porém, aludindo à citada demarcação, a maioria delas, por mais bela que fosse, não conseguiu ultrapassar esse limite que separa os excelentes dos bons. E isso não significa que essas músicas não eram boas o suficiente. O que acontece, na verdade, é que elas eram ótimas músicas, mas dentro de suas limitações.

E essas limitações eram os traços da nossa cultura naquele momento. Tais limitações as impediram de evoluir, acompanhando o caminhar da nossa sociedade. Pois, essas músicas continuariam relevantes apenas se o nosso ambiente cultural se mantivesse exatamente o mesmo. Mas isso é impraticável.

Por outro lado, as músicas dos grandes mestres deste cenário não ficam presas a estes limites culturais. Elas, livres de qualquer limitação, evoluem junto à sociedade, mesmo sem sofrerem nenhuma alteração. Este é o traço mais evidente da excelência.

Para facilitar a identificação dessas grandes obras, basta se fazer uma simples pergunta: quais músicas continuarão sendo relevantes daqui a 100 anos?

Felizmente, podemos responder a esta pergunta citando inúmeras músicas brasileiras. Para você, quais seriam?

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Natural de Salvador, Manlei Santeoni tem 25 anos de idade, é apaixonado por literatura, filosofia e uma boa música. Escreve para a internet há alguns anos e é aficionado por cadernos ─ onde a maioria de seus textos é iniciada. Junto com sua paixão pela música e pela natureza, Santeoni também é contador de histórias, e seu primeiro livro a ser publicado já está em produção. Adicionada a tudo isso está a sua alta estima pela Língua Portuguesa ─ principalmente quando bem falada e bem escrita.