A Prisão das Almas

Marcados pela memória e despedidas apenas pensadas, nos trancamos em caixas e cofres, onde há eras estava nossa desolação. Entre as paredes lacradas que vedam nosso murmúrio, as lembranças se perdem nas nuvens de amargura. O suplício dos que já foram atingem todos os nossos sentidos, alimentando as chamas que brilham no escuro, mas que não trazem luz. O escuro continua lúgubre, ainda  com as chamas acesas.

No papel, o negro do lápis marca seus caminhos pelos brancos campos inexplorados, e seu trajeto fica sobressaltado para sempre na superfície da lauda. A borracha apenas anula o destaque do traço infindo, pois o papel marcado nunca volta à sua forma original.

Com os mesmos padrões a nossa mente funciona. Vozes, gestos e traços dos já idos, permanecem por afinco, aflorando os sentidos que habitam os cantos mais escuros do nosso pensamento. Como a borracha no papel, podemos apenas atenuar as lavas das lembranças, mas elas jamais cessarão. A saudade é o fogo que a água não apaga.

Na prisão de nossas almas, a liberdade é a pior sentença. Somos livres para pôr para dentro o que desejarmos, mas nada de lá sai. Os sentimentos mais nobres que até lá conduzimos, sempre estão acompanhados de seu inverso carrasco. E estes entram como intrusos, invisíveis aos olhos vendados pelo júbilo. O amor traz consigo o ódio. Com a felicidade vem a tristeza. A euforia carrega o desânimo.

Porém, também nesta prisão existe o regozijo. O reflexo das lembranças se mostram nas águas que formam as ondas que nos guiarão ao nosso destino. E nessas lembranças existe o calafrio. A ânsia de ouvir a voz, de sentir o toque. Olhar nos olhos e perceber que encaras a tua fortaleza. Fortaleza que agora vive em suas memórias, trancada no escuro da prisão. Na qual também existe o amor, e é ele que dá sentido à nossa existência. Ele que, mesmo trancado, não perde sua essência.

O amor ilumina o escuro, arrancando dos cantos escondidos os nossos medos, para então nos fazer enxergar seu valor. Pois o sábio não confronta seu medo, mas aprende a observá-lo. Nossos medos são nossos aliados, e nos proporcionam feitos que jamais alcançaríamos em sua ausência.

Também o amor é a única água que apaga o fogo da saudade. Mas, ainda assim, deixando marcas negras no chão. Pois a saudade já foi amor um dia, e teve seu nome alterado para lembrar do amor fora de alcance, que apenas reside nas lembranças.

Natural de Salvador, Manlei Santeoni tem 25 anos de idade, é apaixonado por literatura, filosofia e uma boa música. Escreve para a internet há alguns anos e é aficionado por cadernos ─ onde a maioria de seus textos é iniciada. Junto com sua paixão pela música e pela natureza, Santeoni também é contador de histórias, e seu primeiro livro a ser publicado já está em produção. Adicionada a tudo isso está a sua alta estima pela Língua Portuguesa ─ principalmente quando bem falada e bem escrita.

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