Opinião política e intolerância

Todos nós temos alguma opinião sobre quase todos os assuntos que tomamos conhecimento. Naturalmente, a maioria de nossas opiniões são baseadas em experiências que tivemos anteriormente na vida. A nossa infância, por exemplo, é o período onde criamos os primeiros laços que nos acompanharão durante toda a nossa caminhada.

Na nossa vida adulta, temos uma relutância para aceitar qualquer opinião que vá contra a nossa. Isso pode significar, em outras palavras, que somos relutantes a aceitar que podemos estar errados. Essa resistência é a primeira causa da maioria dos conflitos interpessoais que enfrentamos.

Quando estamos conversando com um amigo, parente ou qualquer outra pessoa, e somos apresentados a ideias antagônicas às nossas, a primeira reação que temos geralmente é rebater essa opinião. Em alguns casos, nos irritamos e passamos a agir como se aquela opinião fosse uma ameaça perigo direta contra nossa vida, ou algo extremamente perigoso para a sociedade.

Tudo parece se agravar quando o assunto é política. Essas divisões ideológicas estão separando as pessoas com mais eficácia que qualquer outro tipo de sistema. Hoje, a união da população encontra-se apenas dentro de seu posicionamento político. Pessoas adeptas da mesma linha de raciocínio desfrutam de uma cumplicidade involuntária e absolutamente conveniente.

Coerência na incoerência

Por mais que tudo isso seja contundente, nada foge da coerência. Muito pelo contrário. Pessoas se unindo por terem os mesmos gostos e/ou opiniões é algo que acontece desde que o mundo é mundo. Quem já foi assistir a um jogo de futebol no estádio consegue entender perfeitamente o significado dessa cumplicidade involuntária. No estádio, a torcida de seu time é sua família. Você provavelmente conhece apenas uma ou duas pessoas entre aqueles trinta mil torcedores. Mas, mesmo assim, sente como se todos fossem próximos a você – e, certamente, defenderia qualquer um deles caso esse estivesse sendo atacado por algum torcedor da outra equipe.

Superficialmente, não existe nenhum problema em nada disso. No entanto, o que acaba acontecendo é que, por acharmos que sempre estamos certos, automaticamente concluímos que nenhuma outra opinião é válida, além da nossa. E quando direcionamos isso para a discussão política, tudo se agrava.

Amizade x Política

A cada dia, a amizade entre apoiadores das diferentes vertentes políticas do nosso país se torna mais improvável. As pessoas que apoiam as ideias de um lado passam a atacar o outro. Taxando-os de ignorantes, analfabetos políticos, cúmplices, dentre outros termos. E o mesmo acontece de forma inversa. Esse tipo de atitude está presente até mesmo dentro das mais antigas amizades. Amigos de infância se separam por pensarem de forma diferente, parentes se afastam por apoiarem vertentes opostas, casais rompem por possuírem visões contrárias.  E inúmeros outros tipos de separações ocorrem seguindo a mesma lógica.

Mas o que ganhamos com tudo isso? O que ganhamos com todas essas discussões que resultam nesses afastamentos? Depois dessas incontáveis brigas, discussões, separações, geralmente continuamos sendo a mesma pessoa. Talvez continuemos  com a mesma opinião, mas com um amigo a menos. Vale a pena todo o desgaste?

A ironia que abraça todas essas pessoas está presente em suas ações: elas agem exatamente da mesma forma. Os apoiadores de um lado criticam as atitudes dos apoiadores do outro e, no entanto, fazem tudo igual. Muitos alegam que o outro lado é intolerante, agressivo, estúpido. Porém, esses mesmos que reclamam, são agressivos, intolerantes e estúpidos. As redes sociais são as grandes vitrines. Basta observar os comentários de ambos os lados nas publicações opostas.

Onde está o erro?

Com tudo isso eu não quero dizer que todos estão certos nem errados. Muitas vezes você poderá estar certo, da mesma forma que também poderá estar errado. Mas como saber se você está certo ou errado? O primeiro passo pode ser ouvir a opinião dos outros, por mais absurda que pareça. Além disso, os livros estão aí, cada vez mais acessíveis. A ignorância lhe fará companhia apenas se você aceitá-la.

O mais difícil disso tudo talvez seja se manter calmo e compreensível quando você estiver certo – ou, pelo menos, quando achar que está. Em alguns momentos você realmente estará certo, e é nesse momento que você precisará agir como uma pessoa adulta e tolerante. No entanto, se você não for uma pessoa nem adulta nem tolerante, nada disso terá relevância alguma.


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Natural de Salvador, Manlei Santeoni tem 25 anos de idade, é apaixonado por literatura, filosofia e uma boa música. Escreve para a internet há alguns anos e é aficionado por cadernos ─ onde a maioria de seus textos é iniciada. Junto com sua paixão pela música e pela natureza, Santeoni também é contador de histórias, e seu primeiro livro a ser publicado já está em produção. Adicionada a tudo isso está a sua alta estima pela Língua Portuguesa ─ principalmente quando bem falada e bem escrita.