O lado escuro da Alma

Há algumas semanas, embarquei numa viagem de 42 minutos com minha amiga e escritora Lucienne Angele. Essa viagem ─ que na verdade foi uma experiência ─, consistia em escrever, o que quer que fosse, enquanto ouvíamos o álbum The Dark Side of the Moon, do Pink Floyd.

O resultado da minha viagem para o lado escura da lua resultou nessa prosa poética que dá nome a este artigo. Note que esse texto pode ser melhor entendido por pessoas que já escutaram o álbum citado, ou por quem tem uma certa afinidade com a banda. Porém, caso você desconheça ambos, não se preocupe: o texto será o seu convite pessoal para conhecer o lado mais escuro de sua própria alma.

Agora, sem mais delongas. Vamos ao que interessa.

 

* * * 


O lado escuro da Alma

 

A loucura nos isola. No início, a solidão vem ao nosso encontro, travestida de confusão, pois ainda não sabemos adorá-la. E no escuro permanecemos, tentando encontrar a luz. Os primeiros momentos são os mais penosos. À noite, repousamos; no outro dia despertamos, isolados, sem saber onde estamos. E assim nasce a nossa insânia. Seu alimento inicial é o nosso desespero; nos ver sem norte a faz rir.

Andamos, questionamos, lutamos. Quantas lutas internas enfrentamos? O escuro se faz. Sorrimos, choramos. Gargalhamos de mãos dadas com a dúvida e soluçamos abraçados com a incerteza. E o escuro se espalha. O escuro prolongado pelo tempo, mas também por este remediado. Aguardamos, nos acostumamos. E o escuro passa a se transformar em afago.

Perdemos tempo. Lançamos palavras ao vento. Gritamos com quem está distante das trevas. E o nosso afago contra nós se volta, pois o remédio também fere a pele exposta. Corremos; para onde? O escuro nos acompanha sem sair do lugar. Ele está em tudo. O escuro perpétuo. Lúgubre e cintilante. O escuro incoerente, mas escuro.

E a nossa corrida contra o tempo nos traz de volta ao conforto do nosso lar. O lar agora ressoante, com acordes de loucura em um cerco de sonidos perpétuos. Pois a loucura uniu-se a nós em meio ao escuro. Mais uma vez o escuro.

E o nosso grito se inicia. O grito que sai do fundo de nossa alma, que palavra alguma descreveria. O grito também perpétuo, porém amistoso. Gritamos, uivamos. Esse é o nosso momento de transição. Nossa autêntica loucura germina ─ e por isso ansiamos. 

E eis que a solidão advinda do escuro nos cumprimenta. Solidão também incoerente, pois caminha com o júbilo. Nossa alma grita, e essa é a única vez que ouvimos sua voz. Se você escuta o sussurro, significa que está morrendo. O sussurro de uma alma escura ─ solitária ─, porém feliz. Grito e sussurro. Ambos realçados pela insanidade.

E mais uma vez tocamos os pés em terras alvas, isentas do negro duradouro. E é este o momento em que aprendemos a viver em meio à clareza dos aprisionados. Pois a comunicação é escassa quando inexiste linguagem. E a linguagem dos loucos só é entendida por seus semelhantes. E o mesmo se dá com os aprisionados.

Aprisionados na prisão das almas e da ignorância. Porém uma prisão invejável, pois o escuro também traz sofrimento.

Quando fechamos a conta, percebemos que todos sofremos. Os que sabem mais e os que menos sabem. Pois saber é sofrer com consciência. Não saber é sofrer na ignorância. E a ignorância é a mãe de todas as ilusões; é reconfortante, tal como o colo materno para um enfermo.

Não obstante, o conhecimento e a ignorância nos colocam no mesmo lugar. Uns de frente para os outros. Observando. Os olhos encontrando-se, porém distantes.

No final, não sabemos quem somos, nem o que aqui fazemos. Ou sabemos ─ e omitimos. Andamos em círculos. Repetimos erros. Desviamo-nos intencionalmente dos acertos. Caímos. Afeiçoamo-nos com o solo, e a ele entregamos os nossos medos. E mais uma vez o escuro impera. Pois medo e o escuro são filhos de uma única mãe, e um nunca está distante do outro.

O nosso sofrimento só é conhecido por nós. Mas não temas: tal sofrimento é tolerável e motivante. Passamos a amá-lo. Queremos tê-lo por perto. “Não nos deixe”, rogamos; e assim continuamos em busca do nosso eu.

Nosso eu, do futuro. Aquele que tudo sabe. Precisamos encontrá-lo, abraçá-lo. O que fizemos de errado? Acertamos?

Não podemos errar. Mas que erremos pouco. Visto que o escuro caminha na contramão. Poderíamos acompanhá-lo?

Não!

Ele nos guia, mas apenas com seus rastros. E eis que, nos últimos passos no caminho da introspecção, encontramos o mais forte dos afetos. O único que escuta os nossos gritos. O que nos transporta para o lado escuro da lua e também de nossa alma.

Sim, o amor. O amor que nasceu no escuro, bem como o medo. E assim nos tornamos os mais fortes dos seres, quando descobrimos o amor escondido nas trevas.

Agora você é livre. Somos livres. Vivemos no escuro, mas escondidos no claro.

De fato, não existe o lado escuro da lua. Na verdade, tudo é escuro.

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Natural de Salvador, Manlei Santeoni tem 25 anos de idade, é apaixonado por literatura, filosofia e uma boa música. Escreve para a internet há alguns anos e é aficionado por cadernos ─ onde a maioria de seus textos é iniciada. Junto com sua paixão pela música e pela natureza, Santeoni também é contador de histórias, e seu primeiro livro a ser publicado já está em produção. Adicionada a tudo isso está a sua alta estima pela Língua Portuguesa ─ principalmente quando bem falada e bem escrita.