Machismo e ignorância ─ O relativismo que todos praticamos

Mulher taxista? Homem secretário? Negro executivo? Gay líder religioso? É com essas perguntas que vou iniciar esse post.

Na nossa configuração atual de sociedade, fazer qualquer uma dessas perguntas acima é dar um leve sinal de um posicionamento preconceituoso. Ao fazer qualquer uma delas, você corre o grande risco de ser taxado com o termo relacionado ao tema, subentendendo-se que transmitiu algum tipo de preconceito em sua fala.

Preconceito

Durante sua habitual caminhada pela cidade, você vê uma mulher dirigindo um táxi. Talvez isso chame sua atenção. Aí então você faz uma pergunta, seguida de um comentário: “Mulher dirigindo táxi? Que estranho!”. E lá vamos nós. Dependendo da pessoa que esteja ao seu lado, após fazer tal comentário, você pode ser tachado de machista. Afinal, mulheres não podem dirigir táxis, certo?

Claro que podem, e não há nada de errado nisso. Porém, isso é algo raramente visto – ao menos aqui na minha cidade –, mas eu vou chegar lá. Antes de contextualizar, vamos a outro exemplo.

Uma nova empresa chegou na cidade. Muitas pessoas buscam uma oportunidade para trabalhar nela e, entre essas pessoas, está você. Você vai até a empresa para uma entrevista de emprego diretamente com o chefe e, ao chegar lá, logo à frente da sala dele, está um homem, ocupando o cargo de secretário. Mais uma vez você acha a situação estranha e faz a velha pergunta, seguida de outro comentário: “Homem secretário? Que estranho!”. E lá vamos nós novamente. Que comentário machista, não? Afinal, só mulheres devem ser secretárias, correto? E mais uma vez eu digo que não: homens podem ser secretários, mas, da mesma maneira, é algo raramente visto.

Conceito

Partindo desses exemplos, agora o nosso foco é a sociedade. Quais são os conceitos, costumes e comportamentos de nossa sociedade? O que estamos acostumados a ver?

Se respondermos estas questões, certamente acabaremos com a grande confusão que tanto estamos acostumados a presenciar.

Na nossa sociedade, estamos acostumados a ver, constantemente, excessivamente, apenas homens dirigindo táxis, construindo casas, recolhendo nosso lixo e tudo mais. Da mesma forma, estamos habituados a ver apenas mulheres trabalhando como secretárias, dando aulas de balé e arrumando nossas casas. E tudo isso cria um conceito.

De acordo com a Wikipedia, um conceito “é aquilo que a mente concebe ou entende: uma ideia ou noção, representação geral e abstrata de uma realidade.” Portanto, ao acharmos estranho o fato de uma mulher dirigir um táxi, apenas o fazemos porque esse novo cenário foge da ideia ou noção – concebida ou entendida pela nossa mente – de que estamos acostumados a ver apenas homens dirigindo táxis, sendo essa, por sua vez, a representação geral de nossa realidade. Por essa razão, dizer que é estranho uma mulher dirigir táxi não é um preconceito machismo, e sim um conceito.

Para evitar qualquer tipo de confusão, direi tudo isso com outras palavras. Não existe problema algum em uma mulher ser taxista, isso é apenas algo que não costumamos ver no nosso dia a dia. E, como qualquer coisa que foge do padrão acaba acendendo uma exclamação em nossa cabeça, com isso não seria diferente.

Certamente algumas pessoas fazem comentários como estes carregados de preconceito, realmente acreditando que mulheres não deveriam dirigir táxis. Porém, nesses casos, a discussão passa a ser moral. A verdade é que, a maioria das pessoas que comentam algo do tipo, não o fazem por mal, e levianamente acabam recebendo os rótulos relacionados.

Demais aplicações

Toda essa argumentação serve para qualquer outro tipo de conceito presente em nossa sociedade. Um homem como professor de balé, por exemplo, pode causar um certo espanto, pois, essa área é majoritariamente dominada por mulheres. Mas, achar estranho um homem à frente de uma turma de bailarinos não é um preconceito, e sim uma divergência no conceito de que, em 99% dos casos, são mulheres que estão à frente.

Muitos desses conceitos são chatos, desnecessários. Porém, apenas o tempo poderá modificá-los ou anulá-los. O que não pode acontecer é culparmos a população por ser coerente. No futuro, quando mais mulheres passarem a dirigir táxis e mais homens optarem por dar aulas de balé, teremos aí, pelo menos, dois conceitos desconstruídos.

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Natural de Salvador, Manlei Santeoni tem 25 anos de idade, é apaixonado por literatura, filosofia e uma boa música. Escreve para a internet há alguns anos e é aficionado por cadernos ─ onde a maioria de seus textos é iniciada. Junto com sua paixão pela música e pela natureza, Santeoni também é contador de histórias, e seu primeiro livro a ser publicado já está em produção. Adicionada a tudo isso está a sua alta estima pela Língua Portuguesa ─ principalmente quando bem falada e bem escrita.