A curiosa sociedade do mimimi ─ #ColunaAnônima

Para escrever este post, antes precisei vestir todo o meu conjunto social que não uso há anos. Isso inclui um smoking feito à medida, encimando uma camisa alva como leite; calça preta e de costura única; sapatos devidamente engraxados e com reflexos vívidos como os de um espelho;  meias de seda importada; uma cartola que só encaixa na minha cabeça e um relógio de bolso francês herdado de família.

Tudo isso para finalmente poder entrar no âmbito dos intelectuais que hoje encontram-se em nossa sociedade. E ainda sem mencionar o vinho tinto suave(!) que tive que abrir para fazer jus à ocasião.

Bom, brincadeiras à parte, infelizmente a realidade não é tão sofisticada assim. Mas vamos por partes. Espero que você tenha paciência para ler este artigo, pois ele será um pouco longo.

A sociedade do mimimi

Reclamar do mimimi seria um mimimi? Se sim, nesse caso, faço questão de ser um mimizento. E com isso eu vou supor que você saiba o que é um mimimi. Se não sabe, clique aqui (e depois volte, ok?). E agora que você sabe do que estou falando, vamos ao assunto.

Na nossa sociedade, reclamar virou moda. As pessoas reclamam de cartazes de filmes, propagandas de refrigerante, beijo gay na televisão e, acredite, reclamam até do beijo que a Bela Adormecida recebe enquanto dorme (veja nesta imagem). Eu queria muito que tudo isso fosse uma brincadeira de mal gosto. Mas, infelizmente, não é.

Pode parecer improvável, ilógico e até ridículo, mas, esse tipo de atitude está cada vez mais presente em todos os segmentos da sociedade. Adicionalmente, essa prática vem ganhando peso nos últimos anos. E isso devido ao fato de que sempre tem alguém disposto a ouvir ─ e concordar ─ com as asneiras que saem da boca de alguém, por mais absurdas que pareçam.

Cale-se, cale-se, cale-se, você me deixa louco!

Se você possui o mínimo de senso do ridículo, certamente está saturado de ouvir todo esse mimimi que caminha em nossa direção. Com essa narrativa eu não pretendo ─ implicitamente ─ dar a entender que não falo besteiras. Muito menos sugerir que os assuntos dos mimimis são irrelevantes. Mas, com certeza, boa parte desses assuntos é descartável.

O caso da Bela Adormecida, por exemplo. A história se trata de um conto de fadas, uma narrativa infantil. Uma historinha bonitinha, desenvolvida para entreter crianças e possivelmente adultos. E, como você certamente sabe, a princesa protagonista da história (a Bela Adormecida), sofre de um encanto que a fez cair em um sono profundo. E desse sono ela só acordará após um beijo de amor verdadeiro, provindo de um príncipe encantado. Bonitinho, não? Pois é.

Como alguém tem a capacidade de encontrar um motivo para mimimi em uma história dessa? E como um outro alguém consegue apoiar tal posição? Essas respostas fogem da minha realidade.

Ao ouvir esse tipo de reclamação, a única coisa que me vem à cabeça é a icônica cena do Kiko dizendo: “Cale-se, cale-se, cale-se, você me deixa louco!”. E realmente me deixaria.

Os críticos da indústria do entretenimento

“Você viu o beijo gay na novela das nove? Que coisa horrível!”. “Agora nas séries da Esfera só passa mulher pelada. E nossas crianças, como ficam?”. “Esse Antena só fala em morte, tragédia. Programa horrível!”. Bom, é com esses comentários que quero dar início a essa seção.

Com certeza você já ouviu algum deles em algum momento. Eu, por mais que tente, ainda não consegui evitar de ouvi-los. Mas vocês percebem o grande problema que existe em cada um deles?

A televisão e nossas crianças

O argumento mais comum hoje em dia é o de que a televisão está destruindo nossas crianças. Pois só existem programas que incitam a violência, novelas estimulando a sexualidade e traição entre casais, reportagens mentirosas e todo tipo de baboseira que você já conhece. Todo mundo reclama da TV e de absolutamente tudo que é produzido para ela. E tudo isso deixa bastante claro que as pessoas esqueceram de uma das funções mais importantes dela, que é a de ficar desligada.

Muitos pais alegam que existe muita nudez na televisão, e que isso pode afetar negativamente a inocência das crianças que assistem. Porém, esses mesmos pais anulam seus argumentos no mesmo momento que os apresentam. Pois, para inicio de conversa, qual é o pai consciente que deixa seu filho assistir televisão? E por que elas estão assistindo aos programas que vão ao ar tarde da noite ─ o que essas crianças estão fazendo acordadas às onze horas ou meia noite?

Da forma que as coisas são apresentadas, tudo faz parecer que essas crianças são obrigadas a assistir a esses programas, e por isso a critica seria relevante. Mas não é. Se você não gosta de alguma coisa, basta ignorá-la.

O curioso é que essas pessoas que reclamam tanto das programações da TV são as mesmas que passam o dia inteiro sem se desligar delas. Qual é a lógica disso?

Eu não assisto TV. Mas com isso não quero dar uma de diferentão nem nada parecido. Simplesmente acredito que meu tempo seria melhor utilizado em outra atividade. Ademais, também não gosto da maioria das programações. No entanto, não vejo sentido em reclamar delas. Se não gosto de jiló, apenas não o como.

Bom, o post acabou ficando muito extenso. Vou ter que terminar por aqui. De todo jeito, acredito que consegui deixar minha ideia bastante clara. E acredito também que em breve escreverei mais sobre o assunto.

 

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João A. tem trinta e quatro anos, é natural de Anonimópolis e atualmente reside em Rio Anônimo do Sul. É pai de um lindo garoto de sete anos de idade, o Anoniminho, e trabalha como Gerente de Anonimato. Nas horas vagas., gosta de jogar sinuca, nadar, escrever e assistir aos jogos do Anônimos Futebol Clube.